6# INTERNACIONAL 21.5.14

     6#1 NO FUNDO, FRIO E DESUMANO
     6#2 O QUE QUER A RSSIA

6#1 NO FUNDO, FRIO E DESUMANO
Na visita  mina onde morreram mais de 300 homens, o premi turco  trado por sua conhecida arrogncia e reduz a tragdia a um "acidente de trabalho", "coisa do destino".
TATIANA GIANINI 

     Nenhum pas est imune a grandes tragdias. Sejam naturais, sejam causadas por falhas humanas, elas ajudam a revelar o que h de melhor e pior no fundo do corao das pessoas. A exploso na mina de carvo que matou mais de 300 homens na Turquia, na semana passada, extraiu do peito do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan a mais sincera arrogncia, frieza e desprezo pelo prximo. Ele visitou a mina, em Soma, onde um incndio em um transformador provocou a exploso. No discurso para os moradores locais, amigos e parentes das vtimas, Erdogan superou-se naquilo que  sua mais conhecida e desprezada essncia como homem pblico, a arrogncia: "H algo chamado acidente de trabalho na literatura. Isso  parte da natureza do negcio. As pessoas da regio esto bastante acostumadas com eventos assim. Essa profisso tem isso em seu destino". Falar em literatura tcnica e estatsticas diante de uma audincia comovida e de luto no foi apenas um escorrego retrico. Erdogan no deu mesmo a mnima para a tragdia e continuou se afastando emocionalmente da multido ao lembrar catstrofes ocorridas em outros pases no passado distante. Falou do acidente na mina de carvo de Hartley Colliery, na Inglaterra, em 1862, em que pereceram 204 mineiros. No se lembrou, porm, do mais importante: o desastre de Hartley Colliery obrigou a Inglaterra a mudar drasticamente as regras para segurana nas minas, estabelecendo que em todas elas deveria haver pelo menos duas sadas de emergncia. 
     Erdogan foi trazido de volta  realidade pelos gritos de "assassino" e "ladro" vindos da multido. Acuados, o premi e sua comitiva correram para um supermercado, onde foram cercados pelo povo enfurecido. A torpeza de Erdogan ecoou pelo mundo. "Os cidados esperam que seus lderes se conectem com eles e mostrem empatia com as emoes que surgem em momentos de tragdia", disse o cientista poltico Allan McConnell, da Universidade de Sydney, na Austrlia. 
     A exploso na mina de Soma era uma tragdia anunciada. Pequenos acidentes recorrentes na regio deram alertas antecipados de que algo realmente doloroso poderia acontecer a qualquer momento. O governo de Erdogan foi avisado diversas vezes da instabilidade nas minas de Soma e nada fez. A Turquia tem a pior taxa de acidentes de trabalho da Europa, com mdia de trs mortos por dia. Os legisladores do Partido da Justia e do Desenvolvimento (AKP), de Erdogan, riram dos colegas e engavetaram uma petio para reformar as regras de segurana nas minas. O AKP tem nos donos de minas alguns de seus grandes doadores de campanha, e a prioridade nunca foi a segurana dos mineiros, mas o lucro dos proprietrios. Em defesa dos amigos, a imprensa estatal fez o possvel para acobertar o episdio. Pouco adiantou. Com o rosto sujo de carvo, milhares protestaram em vrias cidades turcas, exigindo a renncia de Erdogan. 
     O desdm do primeiro-ministro no vem apenas da camaradagem entre polticos e empresrios. Desde que chegou ao poder, em 2002, Erdogan e seu partido s pensam em se eternizar no comando do pas. Um dos caminhos para a consecuo do plano mestre  dar fora cada vez maior aos religiosos islmicos, ferindo a caracterstica mais admirada da Turquia, que foi a separao entre a Igreja e o Estado. Erdogan prendeu generais defensores do Estado laico e jornalistas de oposio. Yusuf Yerkel, vice-chefe de gabinete de Erdogan,  um espelho do premi. Em Soma, ele ser sempre lembrado por ter chutado diversas vezes um jovem manifestante que j estava no cho, imobilizado pelos policiais. Erdogan  carta fora do baralho depois da tragdia de Soma? Dificilmente. Ele controla fortemente o fluxo de informao e deve manter intacto o apoio que recebe da populao rural, ignorante e submetida ao clero islmico. Na quinta 15, uma greve geral convocada pelas quatro maiores centrais sindicais paralisou o pas. O impacto dever ser sentido nas urnas nas prximas eleies, mas poucos analistas acreditam na derrota do AKP. Frio, distante, desumano e arrogante, Erdogan  o homem com os vcios adequados para um pas em plena marcha da insensatez rumo  servido religiosa. 


6#2 O QUE QUER A RSSIA
O presidente Vladimir Putin j levou a Crimeia e quer semear uma guerra civil na Ucrnia. Seu maior objetivo no  promover uma expanso imperialista, e sim fortalecer seu autoritarismo e esmagar a oposio interna.
NATHALIA WATKINS, DE MOSCOU

     Entre as muralhas vermelhas do Kremlin e lojas da Tiffany, Hermes e Louis Vuitton, milhares de russos aproveitam o calor da primavera para circular no corao da capital. Em uma das entradas da Praa Vermelha, visitantes formam fila para fazer pedidos, seguidos do lanamento de moedas sobre o marco zero de Moscou, o quadrado com um crculo no meio que fica no centro geogrfico da cidade. Sem nenhuma cerimnia, um pedinte disputa os rublos no cho com uma mulher idosa. Ssias de Josef Stalin e Vladimir Lenin ficam ao redor na esperana de que os saudosistas paguem para tirar fotos com eles. Em poder de atrao, nenhum deles  preo para o ssia do presidente Vladimir Putin, o homem que desde maro mantm o Ocidente em estado de tenso por ter anexado a Pennsula da Crimeia  fora e que agora empurra a Ucrnia para uma guerra civil de resultados imprevisveis. "As pessoas se aproximam e me agradecem pela recuperao da Crimeia. Sou muito grato por ser parecido com o nosso presidente", diz o ssia de Putin, que prefere no revelar o seu nome verdadeiro. Um clique ao seu lado custa 1000 rublos, dinheiro suficiente para comprar onze sanduches em uma loja do McDonalds ali perto. "Todo mundo que me v fica alegre e sorri.  assim comigo e com o nosso presidente. Os russos sabem que com ele tudo ficar bem, em ordem", diz o Putin de mentira. Enquanto Lenin e Stalin labutam o dia todo, o requisitado Putin trabalha somente duas horas por dia e apenas em alguns dias da semana. 
     Putin, o ssia, fala em "recuperao" da Crimeia da mesma forma que Putin, o verdadeiro. A maioria dos russos pensa de maneira semelhante. No se encontra quem aceite o termo "anexao" para explicar a tomada daquela regio pela Rssia. Para eles, a pennsula que ento pertencia  Ucrnia sempre foi uma parte de seu pas, salvo em um breve intervalo entre os anos de 1954 e 2014. Oito em cada dez russos esto de acordo sobre a tomada da Crimeia e aprovam a gesto do presidente. Suas palavras, seus raciocnios e seu discurso nacionalista, embora estranhos para ouvidos estrangeiros, tm soado como msica clssica para os russos. Putin no tem a inteno de expandir as fronteiras da Rssia, como fizeram os czares e os comunistas soviticos. A maior parte dos russos acha que a anexao da Crimeia foi um bem para os prprios anexados e que isso trar at prejuzos econmicos a Moscou. O presidente Putin explora muito bem o forte sentimento patritico dos russos. O objetivo  prolongar seu poder pelo mais longo tempo possvel  e apagar qualquer fasca mais forte da oposio interna. 
     No campo ideolgico, a poltica de Putin se sustenta na tese de que existe uma "civilizao russa", uma organizao sociocultural superior que precisa ser defendida dos avanos do degenerado Ocidente. Sua alta taxa de popularidade mostra que a tese cai bem no imaginrio popular do povo russo. Pode ser at que o patriotismo seja um sentimento sinceramente acalentado por Vladimir Putin. O certo  que, quando ainda galgava postos na vitoriosa carreira de espio da extinta Unio Sovitica, Putin entendeu que no se perde nada explorando a atvica desconfiana dos russos contra tudo o que vem de fora. "Quando escutamos o Ocidente mencionar a palavra democracia, j imaginamos helicpteros e botas da Otan", diz Anton Demidov, lder do movimento Rssia Jovem, um dos grupos juvenis criados e estimulados por Putin entre 2004 e 2006 com o objetivo de se contrapor s genunas revoltas populares que, tendo desestabilizado e derrubado regimes no mundo rabe e na Europa Oriental, poderiam vingar na Rssia.  difcil saber se esses jovens fiis a Putin so idealistas, pragmticos ou apenas mercenrios. Mas eles esto por toda parte e  disseminada entre os russos de todas as idades a sensao de que no passa de ardilosa propaganda ocidental pregar democracia ou igualdade de direitos. Putin, tudo indica, conquistou os coraes e mentes da Rssia profunda, vista como o ltimo reduto da decncia e do moralismo. 
     A Igreja Ortodoxa  uma vital aliada do presidente na propagao da ideologia nacionalista. Seus lderes so animados cabos eleitorais do atual ocupante do Kremlin. O reforo religioso encorajou Putin a se colocar como defensor dos bons costumes. No incio do ms, o presidente assinou uma lei que probe o uso de palavres em filmes e peas de teatro. Quem descumprir a regra, que entrar em vigor em 1 de julho, ser multado. A lei ecoa o totalitarismo do perodo sovitico, quando, a pretexto de salvaguardar o povo das perverses artsticas e comportamentais do Ocidente capitalista, os comunistas impunham a censura a todas as formas de comunicao. 
     Os ataques a homossexuais so manifestaes frequentes de intolerncia na Rssia de Putin. O governo aceita e refora a discriminao. Uma lei de junho de 2013 proibiu a propaganda gay para menores de 18 anos. "No me parece normal que meus filhos assistam a um comercial que tenha contedo gay. Herdamos isso da Unio Sovitica, que tambm no tolerava o homossexualismo", diz o cientista poltico russo Mikhail Deliagin, diretor do Instituto de Problemas da Globalizao, em Moscou. No dia 24 de abril, cerca de 200 convidados que assistiam a uma estreia do documentrio Crianas 404, sobre a vida dos jovens gays na Rssia, em uma sala de cinema particular foram surpreendidos no meio da sesso. Com cartazes com a frase "Sodoma, fora da Rssia", militantes e policiais bloquearam a sada da sala e pediram os documentos de todos os presentes, em busca de menores. Os espectadores foram insultados e filmados. "Tive a impresso de que no era apenas fanatismo. Os agressores estavam sendo financiados e cumprindo ordens do presidente", diz o crtico de cinema russo Mikhail Ratgauz. O ttulo do filme se refere ao nome de um grupo de apoio s minorias sexuais (banidas ou ignoradas na Rssia) que, por sua vez, se inspirou na mensagem (Error 404- File not Found) que os servidores de internet exibem aos usurios para informar que determinado contedo foi propositadamente colocado fora do alcance deles. 
     A perseguio aos intelectuais  outra herana do totalitarismo comunista que Putin est reavivando na Rssia. Qualquer forma de pensamento autnomo  desencorajada. "Ao longo de dcadas, os russos se habituaram a uma ideologia que valoriza a dependncia do indivduo em relao ao Estado. O povo tradicionalmente espera que o governo providencie tudo", diz Lev Gudkov, diretor do centro de pesquisas de opinio Levada Center, em Moscou. Um dos autores mais mencionados por Putin  o filsofo Ivan Ilyin. Em um de seus trabalhos, Ilyin afirmou que a Rssia possuiria um "misterioso poder", o qual possibilitaria ao pas reviver seus tempos de glrias passadas. Ilyin, que fugiu dos bolcheviques e morreu na Sua em 1954, acreditava que o pas se redescobriria, espiritual e politicamente, e salvaria o mundo. Putin repatriou o corpo de Ilyin e pagou do prprio bolso os custos da nova lpide. 
     Para sedimentar a tese de um "excepcionalismo russo", Putin monopolizou o debate poltico e os currculos escolares. Praticamente todos os meios de comunicao adulam diariamente o governo. Assim como em Cuba ou na Venezuela, no h canais abertos de televiso independentes. Por ser a voz crtica mais forte, o canal Dozhd foi retirado arbitrariamente dos principais operadores de satlite h trs meses. Perdeu quase 50% dos espectadores e 80% da verba publicitria. Metade dos 300 funcionrios teve de ser demitida. A reao na opinio pblica foi nfima. "A maioria da populao no vive mal e no  afetada diretamente pelo cerceamento  liberdade de expresso", diz Natalia Sindeeva, fundadora do Dozhd. "Os russos s querem alimentar a famlia, que a Crimeia seja russa e poder viajar de frias para o Egito ou para a Turquia uma vez ao ano." Leis para impedir a manifestao de ideias divergentes saem do Congresso quase toda semana. Em abril, foi aprovada uma que converte os blogs em veculos de comunicao. Com isso, qualquer blog com mais de 3000 leitores ter de se registrar no ministrio da imprensa e ser submetido ao controle estatal. Outra lei, anterior, obriga as ONGs a se registrarem como "agentes estrangeiros". No teatro e no cinema, a censura ocorre de forma indireta. Fundaes e institutos culturais com opinies contrrias ao governo no recebem parte do oramento estatal dedicado  cultura. Nas escolas, os currculos foram modificados para enaltecer as conquistas militares e estimular a desconfiana em relao a outros pases. 
     Sem espao para exporem suas ideias, os opositores mais bem preparados no conseguem aparecer ou arrebanhar seguidores. Qualquer voz que se destaque  silenciada. O opositor Aleksei Navalny, que ficou em segundo lugar na disputa pela prefeitura de Moscou no ano passado, publicou denncias de corrupo na internet e sofreu uma avalanche de processos judiciais. Entre as acusaes est a de que ele disse que um poltico governista era usurio de drogas. H dois meses, Navalny foi colocado em priso domiciliar e proibido de usar a internet. 
     Nas ltimas semanas, enquanto os conflitos nas cidades da vizinha Ucrnia ganhavam intensidade, bandeiras nacionais com as cores da Rssia eram amarradas nas janelas dos apartamentos e na mochila dos estudantes secundaristas. Enquanto isso, aumentavam os investimentos imobilirios de russos em ilhas caribenhas, onde a compra de imveis garante cidadania. "Quem j ganhou dinheiro aqui quer lev-lo para fora e dessa forma garantir que seus bens estaro seguros", diz o americano Nuri Katz, presidente da consultoria de investimentos Apex, sediada em Moscou (sem vnculo com o governo brasileiro). Isolada e nacionalista, a Rssia de Vladimir Putin  uma preocupao crescente para as naes do Ocidente. 

O MELHOR POSSVEL
Mais de 10 milhes de russos assistem ao programa de entrevistas de Sergei Brilev, aos sbados, no canal de televiso estatal Rossiya. Nascido em Havana, de pais russos, ele tem um cartaz de Fidel Castro na parede. Recentemente, entrevistou Putin no estdio. "A popularidade do presidente  genuna", diz. Embora Brilev se considere um moderado dentro de seu canal, est longe de ser um defensor da democracia. "Pelas dimenses deste pas, qualquer governo tem de ser autoritrio. Do contrrio, seria impossvel govern-lo".

A VOZ DO POVO
Alena Arshinova, de 29 anos,  uma das mais jovens deputadas da Duma, o Parlamento russo. Tambm  uma das dirigentes do partido Rssia Unida, de Putin. "Estamos tentando criar boas condies para os jovens do pas. Infelizmente, o Ocidente no entende isso", diz Aiena. E completa: "Democracia  fazer com que o povo seja ouvido. No caso da Ucrnia. Putin ouviu a voz do povo". Segundo ela, enquanto as grandes questes do pas so debatidas na Duma e dentro do seu partido, a oposio prefere imitar os Estados Unidos.

O CAMARADA DA KGB
Rudik Iskuzhin  amigo de longa data de Putin, com quem estudou na extinta KGB, o servio secreto. Membro do partido Rssia Unida, para ele o poder central  tudo e mais um pouco. "Na Rssia, o Estado se preocupa com seus cidados desde os tempos dos imperadores, por isso h uma relao respeitosa com o poder." Nacionalista, ele despreza o que considera influncias externas na cultura de seu pas. "O Ocidente diz que precisamos de democracia e de casamento gay. Ns, russos, estamos fartos disso". 

APLAUSOS UNNIMES
Para participar dos grandes espetculos financiados pelo Estado, os atores precisam demonstrar lealdade ao governo. Polina Agureeva, de 37 anos, estrela de seriados sobre a histria russa, est entre os que alcanaram sucesso. "Com Putin, temos a oportunidade de retomar nossa individualidade, nossa cultura e conter a influncia americana", diz Polina. Embora se diga uma defensora da liberdade de expresso, a atriz afirma gostar da ideia de unidade: "Putin no  um santo, mas  preciso valorizar suas vitrias".

LAVAGEM CEREBRAL
A professora de histria Tmara Eydelman leciona em uma das vinte mais bem conceituadas instituies de ensino em Moscou desde 1986. Segundo ela, o governo tem reforado na sala de aula a ideia de que a Rssia  a maior potncia mundial, cercada por inimigos. "Nas apostilas e nos livros, as guerras e glrias militares sobressaem a outros valores, como a ajuda ao prximo", diz ela. Entre as outras medidas do governo que ela critica esto o aumento do controle das atividades dos professores e a reduo na variedade de livros disponveis. 


